escolher é, talvez, o mais difícil de todos os verbos que temos que conjugar na vida. desde pequenos, em nossas infâncias burguesas, fomos sendo preparados pela vida para escolher - ainda que não tivéssemos consciência disso na maior parte das vezes. escolher entre a bicicleta ou o video game na cartinha do papai noel era já um exercício preparatório para uma vida de escolhas que nos aguardava - dos mais fáceis, diga-se de passagem. ainda na infância, alguns de nós tiveram de fazer uma primeira dura e definitiva escolha: morar com o papai ou com a mamãe - primeira geração que fomos depois da lei do divórcio, de 1977. felizmente, não foi o meu caso, pero bueno... ao longo da vida temos de escolher entre tantas coisas: em que colégio estudar (às vezes nossos pais ou irmãos mais velhos escolhem por nós!); deixar ou não as aulas de piano; que faculdade fazer; sair ou não naquela noite de sábado definitiva; aceitar ou não aquele convite para jantar; sair ou não da casa dos pais; aceitar ou não aquela oferta de emprego; com quem morar junto; com quem casar; com quem ter filhos - isso depois de escolhermos entre tê-los ou não tê-los. e a maioria dessas escolhas - apesar de não termos consciência na hora - são mais definitivas do que imaginamos. escolher uma coisa significa preterir outra, sempre. não dá para colocar o lado a e o lado b para tocar ao mesmo tempo. não do mesmo disco e na mesma vitrola. é uma questão física. escolher a bicicleta pressupõe desistir do video game. morar com a mamãe significa ver o papai só nos fins de semana. estudar no colégio x determina que aquelas pessoas a quem primeiro chamaremos de amigos não serão as do colégio y. escolher a faculdade de direito significa que muito provavelmente jamais seremos biólogos. sempre podemos fazer outra faculdade - alguns pensarão - mas a verdade é que as folhinhas do calendário caem depressa demais e tudo vai ficando mais difícil. olhando para trás certamente lembraremos das bifurcações definitivas de nossos caminhos. aqueles momentos incrivelmente especiais em que tivemos de optar por virar à direita ou à esquerda - instantes que fizeram toda a diferença. ser feliz - me parece - não é muito mais do que ter aquela sensação de ter feito as escolhas certas no caminho da vida. ou do que ter a coragem e a disposição necessárias para voltar atrás quando percebemos que fizemos a escolha errada. por isso é que existem as segundas faculdades, os segundos empregos, os segundos casamentos, e os terceiros e os quartos... pensemos nisso!
o que não dá pé é ficar em cima do muro, colocar o lado a para tocar e ficar cantarolando as músicas do lado b... é o difícil exercício diário de inteireza ao qual todos nós deveríamos nos dedicar com mais afinco.
o que não dá pé é ficar em cima do muro, colocar o lado a para tocar e ficar cantarolando as músicas do lado b... é o difícil exercício diário de inteireza ao qual todos nós deveríamos nos dedicar com mais afinco.
[escrito e publicado em 2004, num blog meu já falecido]
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e me vem sempre a máxima do amor fati de nietzsche: "escolhe o teu destino, ama o teu destino."





