domingo, 3 de agosto de 2008

"ouve-me, ouve o meu silêncio. o que falo nunca é o que falo e sim outra coisa..."
[clarisse l.]

segunda-feira, 14 de julho de 2008

liberté, égalité, fraternité!!!

VIVA A REVOLUÇÃO FRANCESA!
[e viva eu neste 14 de julho!]

quarta-feira, 9 de julho de 2008

a vida continua...

todo o operacional após a morte de alguém é muito cruel. fazer parte deste processo tem me matado um tantinho também. e eu me pergunto: para quantas pessoas neste mundo somos verdadeiramente insubstituíveis?
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- agora a gente já pode fazer as reservas dos hotéis de praga, londres e lisboa.
- pois é. e é bom a gente ligar para a joinha para saber se vamos ter de cancelar aquela primeira diária em paris.
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às vezes a vida nos permite uns diálogos bem improváveis.

domingo, 6 de julho de 2008

carpe diem

cruzamo-nos pela última vez na escadaria de acesso restrito onde habitualmente professores e funcionários se encontram ao percorrerem, invariavelmente apressados, sentidos opostos. era quarta(talvez quinta)-feira desta semana. já nem me lembro se era eu quem subia ou descia naquela oportunidade. lembro-me apenas de havermos trocado, como de costume, rápidas palavras cordiais de saudação e despedida, e de sentir-me levemente constrangida com a minha incurável mania de encurtar, em tom de intimidade, o nome de pessoas pelas quais nutro tímido, mas real, apreço. se eu soubesse que não mais o veria com vida, certamente teria lhe dado um abraço e falado do prazer que tinha sido encontrá-lo, como colega de ofício, nesta fugaz existência.
uma semana antes tínhamos tido a oportunidade de conversar com um pouco mais de calma, sentados que estávamos na coordenação, onde ele tinha ido verificar os horários do semestre que vem – semestre que, a despeito de todo o planejamento, ele não mais lecionará. na ocasião, lembro-me de havê-lo indagado o porquê de tanta pressa, de tanta atividade simultânea, sem entender exatamente como ele conseguia tempo para coordenar um curso de direito numa faculdade e dar aulas em duas outras, com o agravante de localizar-se uma delas fora da capital. em resposta ele me disse, com a ansiedade comum a todos aqueles que instintivamente pressentem o pouco tempo de que dispõem neste plano, que eu esquecia ainda da militância como advogado, do envolvimento freqüente em atividades da oab e do rotary, da esposa e do pequeno arthur, e da paixão pelo pára-quedismo, herança familiar do avô militar. lembro-me de havê-lo ligeiramente repreendido, destacando o perigo desnecessário dessa prática esportiva.
ontem ele foi a primeira pessoa que me veio à cabeça ao acordar. como coordenadora, sentia-me responsável por adverti-lo a respeito do cancelamento da disciplina de férias que ele daria na faculdade a partir de amanhã. a cancelamos por não contarmos, até o final do dia da última quinta-feira, com o número mínimo de alunos matriculados que justificasse o fechamento da turma. sabendo que ele estava em são paulo, e imaginando que talvez ele tivesse programado retornar no domingo apenas em função do início das aulas, quis oportunizar uma extensão da viagem, se ele assim entendesse conveniente. minha primeira providência do dia, portanto, foi enviar-lhe um e-mail avisando – e-mail que, a julgar pela ausência de resposta, ele jamais chegaria a ler. mal sabia eu, então, que caberia a mim, como última providência daquele mesmo sábado, enviar outro e-mail, desta vez para a larga lista de nossos docentes, comunicando a triste notícia de seu falecimento prematuro.
dona morte anda solta neste bissexto estranho e parece-me bastante prudente que a tratemos com toda a deferência. desafiá-la com saltos de pára-quedas e outras imprudências é de todo desaconselhável. dona vida, de sua parte, mostrou-se uma vez mais impermanente e imprevisível, e deixou-nos a todos consternados e a mim, em especial, (over)pensativa.
episódios como esse nos lembram, inevitavelmente, de nossa própria mortalidade. nos fazem repensar a vida e a maneira como a estamos conduzindo. deveria-nos mudar radicalmente o foco, as prioridades, o timing. mas não mudam mais do que por alguns poucos dias, o que eu avalio como uma tosca característica de nossa imperfeita humanidade. enquanto o sentimento está bem fresco, escrevo para eternizar minha impotência absoluta diante do imponderável, minha incalculável tristeza íntima de lembrar que cada dia desta vida é mais um dia a menos que um dia a mais. escrevo também, queridos, para pedir-lhes, como vinícius, que tomem vento, que tomem tento, que vivam o hoje, que amem em tempo integral, que se cuidem muito, que peçam proteção divina e que não se esqueçam que "esta vida é uma estranha hospedaria, de onde se parte quase sempre às tontas, pois nunca as nossas malas estão prontas, e a nossa conta nunca está em dia."

quarta-feira, 2 de julho de 2008

il y a toujours quelque chose d´absent qui me tourmente

paris — toda vez que chego a paris tenho um ritual particular. depois de dormir algumas horas, dou uma espanada no rodenirterceiromundista e vou até notre-dame. acendo vela, rezo, fico olhando a catedral imensa no coração do ocidente. sempre penso em joana d’arc, heroína dos meus remotos 12 anos; no caminho de santiago de compostela, do qual notre-dame é o ponto de partida — e em minha mãe, professora de história que, entre tantas coisas mais, me ensinou essa paixão pelo mundo e pelo tempo. sempre acontecem coisas quando vou a notre-dame. certa vez, encontrei um conhecido de porto alegre que não via pelo menos há 20 anos. outra, chegando de uma temporada penosa numa londres congelada e aterrorizada por bombas do IRA, na época da guerra do golfo, tropecei numa greve de fome de curdos no jardim em frente. na mais bonita dessas vezes, eu estava tristíssimo. há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para botucatu quanto para java, budapeste ou maputo — nada interessa. viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”, feito Pessoa. eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. sabia só que doía, doía. sem remédio. enrolado num capotão da segunda guerra, naquela tarde em notre-dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. parei numa vitrina cheia de obras do conde saint-germain, me perdi pelos bulevares da ile de la cité. então sentei num banco do quai de bourbon, de costas para o sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “iI y a toujours quelque chose d’absent qui me tourmente” (existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por camille claudel a rodín, em 1886. daquela casa, dizia a placa, camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. perdida de amor, de talento e de loucura. fazia frio, garoava fino sobre o sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. copiei a frase numa agenda. e seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. tomei um calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de egon schiele enquanto a frase de camille assentava aos poucos na cabeça. que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. sentir sede, faz parte. e atormenta. como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente, três anos depois fui parar em saint-nazaire, cidadezinha no estuário do rio loire, fronteira sul da bretanha. lá, escrevi uma novela chamada bem longe de marienbad, homenagem mais à canção de barbara que ao filme de resnais. uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) camille claudel. lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. e lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. e do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei. pego o metrô, vou conferir. continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do quai de bourbon, no mesmo lugar. quando um dia você vier a paris, procure. e se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. guarde sem dor, embora doa, e em segredo.
[caio fernando abreu]
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porque poucas coisas são melhores do que ir a paris. voltar a paris certamente é uma delas.

sábado, 28 de junho de 2008

metáfora das ampulhetas

eu? seguindo na minha lida ininterrupta, no meu afã continuado, na minha perseverante tentativa de fazer as pazes com o tempo. pretendendo deixar o passado no passado e o futuro no futuro. permitindo que cada grão de areia passe, sozinho, um de cada vez, pelo estreito canal da ampulheta da vida chamado presente. vivendo a vida em pequenas doses diárias, de amor, paz, paixão, tristeza, alegria, tensão, dor, expectativa, realização, sofrimento, saudade, desejo, conforto, cansaço, agitação e tédio... e (over)pensando se o tempo realmente passa, ou somos nós que passamos por ele(?).

domingo, 22 de junho de 2008

e o vento levou

muitos anos depois eu choraria emocionada
na segunda fila de uma igreja,
desejando que ele fosse tão feliz quanto fomos na infância.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

conselho de quintana

não te abras com teu amigo
que ele um outro amigo tem
e o amigo do teu amigo
possui amigos também...
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[às vezes eu me sinto uma caixa de segredos alheios.]

sexta-feira, 13 de junho de 2008

primeira pessoa do singular

eu quero: aprender a querer o que tenho (ando lendo sponville!)
eu tenho: um rico e inatingível mundinho interior
eu gostaria de ter: menos consideração com o passado
eu gostaria de não ter: tanta imaginação
eu acho: que a vida tem vontade própria
eu odeio: superficialidade, confusão, ingratidão, insensibilidade, grosseria e coentro
eu sinto saudades: de tudo o que foi e já não é
eu faço: coleção de corujas
eu fiz e não faria de novo: comprar um carro amarelo ímola
eu fazia e deixei de fazer: comprar (e comer) bono de chocolate
eu escuto: meu celular tocando quando ele não está tocando
eu cheiro: à flor de maracujá
eu imploro: por uns feriados em 2008.2
eu pergunto-me: e se...?
eu arrependo-me: de pouco ou nada
eu amo: cada vez menos gente
eu sinto dor: (de ouvido) quando o avião começa a descer para aterrissar
eu sinto falta: de tudo o que poderia ter sido e não foi
eu sempre: agradeço pelo que tenho
eu não fico: me lamentando da vida
eu acredito: que os anjos moram nas bibliotecas e se encontram às 18h nos telhados dos edifícios
eu danço: flamenco (ainda?)
eu canto: enquanto dirijo
eu choro: em filmes, desenhos animados, despedidas, reencontros, casamentos, enterros, formaturas e congêneres
eu falho: no meu exercício diário de inteireza
eu luto: contra a minha vontade recorrente de fugir dirigindo um carro conversível ao som de sade - a cantora (minha fantasia não-sexual!).
eu escrevo: porque sou uma escritora frustrada
eu ganho: uma demão de verniz a cada paulada que levo
eu perco: um dia desta vida a cada dia que passa
eu nunca: digo nunca mais ou para sempre
eu estou: me descobrindo cada vez mais racional
eu sou: a menininha de vermelho de um poema de vininha
eu fico feliz: quando estou entre os meus
eu tenho esperança: de que o mundo não se acabe amanhã
eu preciso: ler epicuro, spinoza, schopenhauer e caio fernando abreu
eu deveria: dormir e acordar mais cedo, fazer exercício físico e comer mais proteína
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porque um quiz é a melhor coisa para se publicar num blog quando não se tem o que publicar num blog.

terça-feira, 27 de maio de 2008

a bênção, bahia!

foi assim meu salvador 2008.
com direito a pôr-do-sol furta-cor.
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por aqui, dias estranhos.
com terremotos em sentido denotativo e conotativo.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

avisa lá, avisa lá, avisa lá ô ô, avisa lá que eu vou...

tô indo ali, queridos, perder a voz, mais uma vez,
diante do "maior mar do mundo".
assistir a dois pores-de-sol. um no farol, outro no mam.
procurar outro quadro de candinho no mercado modelo.
comer acarajé e cocada legítimos.
e pedir a bênção, pra mim e pra vocês, ao senhor do bonfim,
a santo antônio (da barra) e a todos os orixás.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

noor-ho-tebbe

será que os amores seriam os mesmos sem djavan, vinícius, chico e roberto (carlos)??? estou certa de que não. é a música que colore o amor.
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a própósito, o violão de glen hansard e o piano marketa irglova têm dado um tom blue aos dias cinzas que insistem em pairar sobre fortaleza.
[sim, eu ainda ando ruminando o filme!]
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p.s.: se eu fosse música, comporia uma bem bonita esta noite.

domingo, 11 de maio de 2008

once

minhas almas sensíveis amadas, façam-se um favor: assistam once. estou encantada. mais um filme europeu que entra na lista dos meus top 10. será minha trilha sonora diária nos próximos meses.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

separação

Voltou-se e mirou-a como se fosse pela última vez, como quem repete um gesto imemorialmente irremediável. No íntimo, preferia não tê-lo feito; mas ao chegar à porta sentiu que nada poderia evitar a reincidência daquela cena tantas vezes contada na história do amor, que é história do mundo. Ela o olhava com um olhar intenso, onde existia uma incompreensão e um anelo, como a pedir-lhe, ao mesmo tempo, que não fosse e que não deixasse de ir, por isso que era tudo impossível entre eles. Viu-a assim por um lapso, em sua beleza morena, real mas já se distanciando na penumbra ambiente que era para ele como a luz da memória. Quis emprestar tom natural ao olhar que lhe dava, mas em vão, pois sentia todo o seu ser evaporar-se em direção a ela. Mais tarde lembrar-se-ia não recordar nenhuma cor naquele instante de separação, apesar da lâmpada rosa que sabia estar acesa. Lembrar-se-ia haver-se dito que a ausência de cores é completa em todos os instantes de separação. Seus olhares fulguraram por um instante um contra o outro, depois se acariciaram ternamente e, finalmente, se disseram que não havia nada a fazer. Disse-lhe adeus com doçura, virou-se e cerrou, de golpe, a porta sobre si mesmo numa tentativa de seccionar aqueles dois mundos que eram ele e ela. Mas o brusco movimento de fechar prendera-lhe entre as folhas de madeira o espesso tecido da vida, e ele ficou retido, sem se poder mover do lugar, sentindo o pranto formar-se muito longe em seu íntimo e subir em busca de espaço, como um rio que nasce. Fechou os olhos, tentando adiantar-se à agonia do momento, mas o fato de sabê-la ali ao lado, e dele separada por imperativos categóricos de suas vidas, não lhe dava forças para desprender-se dela. Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca. Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, de sair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde...

[vinícius de moraes]

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tem alma de poeta todo aquele que consegue ver beleza na tristeza.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

ene-a-o-til

"Na rotina de 'me ser' tanto compromisso como a coerência e a precisão deve ter me envelhecido séculos."
[clara (del valle)]
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em compensação, parece que finalmente eu aprendi a dizer não.